terça-feira, abril 16, 2024
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Desperdícios e falhas tecnológicas: como a carne de laboratório falhou em ser uma revolução alimentar

por The New York Times Joe Fassler
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É uma visão brilhante de um mundo um pouco além do presente, no qual a carne é abundante e acessível, quase sem custo para o meio ambiente. A matança de animais foi deixada de lado. O aquecimento global está contido. No centro da visão está uma fábrica de alta tecnologia que abriga tanques de aço da altura de prédios de apartamentos e esteiras transportadoras que movem bifes totalmente formados, milhões de quilos por dia – surpreendentemente, o suficiente para alimentar uma nação inteira.

Produzir carne sem a necessidade de abater animais é a promessa central do que passou a ser conhecido como carne cultivada, que não é uma nova alternativa à base de plantas. Pelo menos em teoria, consiste em células animais enriquecidas com os nutrientes e hormônios certos, finalizadas com técnicas de processamento sofisticadas, e voilà: hambúrgueres suculentos, atum grelhado e costeletas de cordeiro marinadas sem a necessidade de preocupações existenciais.

É uma visão hedonista, mas também altruísta. Uma abordagem para economizar água, liberar vastas extensões de terra e reduzir drasticamente as emissões que contribuem para o aquecimento global, além de proteger espécies vulneráveis. É como uma saída de emergência para os excessos da humanidade. Basta pegar garfo e faca e aproveitar.

No período entre 2016 e 2022, os investidores injetaram quase US$ 3 bilhões em empresas voltadas para o desenvolvimento de carne e frutos do mar cultivados. Poderosos fundos de capital de risco e fundos soberanos – o SoftBank, a Temasek e a Qatar Investment Authority – buscaram participar, assim como grandes empresas de processamento de carne, incluindo a Tyson, a Cargill e a JBS, e celebridades como Leonardo DiCaprio, Bill Gates e Richard Branson. Duas das principais empresas desse setor – a Eat Just e a Upside Foods, ambas startups – supostamente alcançaram uma avaliação bilionária. E, hoje, alguns produtos que incluem células cultivadas receberam aprovação para venda em Singapura, nos Estados Unidos e em Israel.

Entretanto, apesar de quase uma década de esforços e de muitos pronunciamentos messiânicos, torna-se cada vez mais evidente que uma revolução abrangente relacionada à carne cultivada nunca foi uma perspectiva real e, definitivamente, não no curto período que nos resta para evitar uma catástrofe climática.

Entrevistas com quase 60 investidores e especialistas do setor, incluindo muitos que trabalharam nas equipes de liderança dessas empresas ou fizeram parte delas, revelam uma profusão de recursos desperdiçados, promessas não cumpridas e ciência não comprovada. Os fundadores, cercados pelas próprias promessas irreais, baseiam-se em atalhos, como o uso de ingredientes derivados de animais abatidos. Os investidores, tomados pela empolgação do momento, fizeram sucessivos investimentos, apesar dos significativos obstáculos tecnológicos. Os custos simplesmente não baixaram para um patamar aceitável, e ninguém conseguiu atingir uma escala de produção minimamente significativa. Mesmo assim, as empresas se apressaram em construir instalações caras e pressionaram os cientistas a ultrapassar os limites do possível, criando a ilusão de uma emocionante corrida para o mercado.

Agora, à medida que o capital de risco se esgota e o desempenho decepcionante desse setor ganha visibilidade, muitos não vão sobreviver ao acerto de contas.

Sem dúvida, os investidores devem estar ansiosos para descobrir o que deu errado. Já o restante de nós se questiona como alguém achou que poderia dar certo. Por que tanta gente acreditou no sonho de que a carne cultivada seria nossa salvação?

A resposta envolve muito mais do que um novo tipo de alimento. Apesar de sua urgência assustadora, a mudança climática é um convite para reinventar a economia, repensar o consumo e reformular nossas relações com a natureza e uns com os outros. A carne cultivada era uma desculpa para evitar esse trabalho árduo e necessário. Embora a ideia parecesse futurista, seu apelo se resumia à nostalgia, uma maneira de fingir que as coisas vão continuar como sempre foram, que nada precisa realmente mudar. Era um pensamento mágico sobre o clima, uma deliciosa ilusão.

Josh Tetrick era o CEO de uma empresa de alimentos veganos chamada Hampton Creek quando se entusiasmou pela primeira vez com o cultivo de carne em laboratório. Ex-jogador de futebol americano, dono de uma confiança ousada e atraente, era presença constante no circuito de conferências, onde se orgulhava de seus investidores gabaritados e de como buscavam “resultados extraordinários”.

Tetrick é ativista dos direitos dos animais desde o ensino médio e fundou a Hampton Creek, em parte, para evitar que os animais de fazenda tivessem uma vida curta e brutal como engrenagens de carne e osso em uma cadeia de suprimentos global. Também falou de forma comovente sobre como a opção por produtos veganos nos ajudaria a reverter as emissões de gases de efeito estufa, a crise hídrica e os danos ao ecossistema causados pela pecuária.

Persuadir carnívoros a mudar seus hábitos alimentares é uma tarefa desafiadora. Apesar do impacto destrutivo da carne, continuamos a consumi-la em grandes quantidades, comportamento que Tetrick comparou ao vício. Mas, ainda na faculdade de direito, ele se deparou com algo que lhe despertou o interesse: cientistas financiados pela Nasa haviam tentado cultivar carne (carne de peixe-dourado, no caso) em laboratório.

A ideia só ganhou força em 2013, quando um cientista holandês chamado Mark Post anunciou ter produzido o primeiro hambúrguer de carne bovina cultivada do mundo. Aquele único hambúrguer, cujas fibras foram meticulosamente cultivadas em centenas de pratos plásticos, custou mais de US$ 300 mil para ser desenvolvido. Não era prático, mas era poderoso, e as startups de carne cultivada logo começaram a buscar investidores, fazer promessas ambiciosas e estabelecer cronogramas agressivos para o desenvolvimento de produtos.

A parte mais fundamental do processo – transformar algumas células vivas em muitas – não era novidade. Era o que as empresas farmacêuticas vinham fazendo havia décadas para produzir vacinas. Para simular as condições que as células encontrariam dentro de um corpo, elas recebem oxigênio e uma mistura rica em aminoácidos e açúcares; hormônios adicionados sinalizam às células que se dividam e se multipliquem.

Embora esse processo seja dispendioso, o resultado geralmente é apenas uma “pasta de células”, uma massa viscosa. Para transformá-la em algo comestível (ou comercializável), seria necessário incorporar matéria vegetal, como ervilha e soja, para obter um tipo de híbrido de animal e vegetal. Ou talvez tentar algo muito mais difícil: fazer com que as células animais se transformem em um tecido semelhante a um músculo.

Fazer tudo isso de forma econômica e em larga escala continua sendo um desafio não solucionado. Isso não impediu Uma Valeti, fundador e CEO da empresa agora conhecida como Upside Foods, de afirmar, em 2016, que a humanidade estava à beira da “segunda domesticação”, uma mudança alimentar tão significativa quanto a transição da caça e da coleta para a agricultura e a pecuária.

“Acreditamos que, em 20 anos, a maior parte da carne vendida nas lojas vai ser cultivada”, declarou ele ao “The Wall Street Journal”. “Em apenas alguns anos, esperamos estar vendendo carne de porco, boi e frango com alto índice de proteína – e totalmente cultivada”, afirmou ao “The Washington Post”. A revista “Inc.” o destacou em um perfil como “o cardiologista que está apostando em sua startup de carne cultivada em laboratório para resolver a crise global de alimentos”.

Tetrick decidiu aderir à tendência. Era um momento oportuno para uma mudança: naquele ano, a Bloomberg publicou uma investigação contundente revelando que a Hampton Creek, agora chamada Eat Just, havia contratado pessoas para comprar frascos de sua maionese vegana a fim de dar a impressão de que a demanda pelo produto era maior. (A Eat Just afirma que esse programa visava garantir a qualidade do produto.) A Bloomberg também noticiou que Tetrick manteve um relacionamento amoroso com uma subordinada, que a Eat Just havia superestimado consideravelmente seus impactos sobre a sustentabilidade e que a empresa fora acusada por um executivo sênior, o influente investidor anjo do Vale do Silício Ali Partovi, de enganar seus investidores. Em 2017, todos os membros da diretoria renunciaram, com exceção de Tetrick.

Visitei a sede da Eat Just em San Francisco em dezembro daquele ano para experimentar uma amostra do Just Egg, o substituto de ovo à base de plantas que a empresa ainda comercializa. Para minha surpresa, também me mostraram esboços de uma fábrica de carne cultivada. Afirmaram que, um dia, uma fábrica como aquela poderia até produzir proteína cultivada suficiente para alimentar todos os Estados Unidos – uma área com uma fração do tamanho de uma fazenda de gado comum, só que muito mais eficiente. Em apenas 15 dias, o equivalente a uma gota de células seria transformado em milhões de quilos de carne.

O livro “Clean Meat” descreve a imagem de Tetrick analisando os projetos da fábrica e dizendo: “Em 2025, construiremos a primeira dessas instalações e, em 2030, seremos a maior empresa de carne do mundo.”

No entanto, os obstáculos cresciam. A empresa estava desenvolvendo produtos à base de carne de pato, como foie gras e chouriço, quando, em algum momento de 2018, durante uma análise das células em uso, os cientistas identificaram células de camundongo. Isso não decorreu da falta de higiene, pois os contaminantes derivavam de materiais de laboratório, não de camundongos vivos. Ainda assim, a Eat Just se viu obrigada a descartar toda a linhagem de células, resultando no abandono completo dos produtos à base de pato. Esse episódio evidenciou alguns dos inúmeros desafios de transpor o cultivo de células do ambiente da pesquisa acadêmica para a produção comercial de alimentos. A empresa me disse recentemente que a contaminação foi um incidente isolado e que, “assim que foi identificada, os produtos não foram servidos a ninguém”.

Esses percalços não abrandaram o avanço do setor, que, no ano seguinte, viu o ingresso de pelo menos 20 novas empresas de carne cultivada em um mercado já altamente competitivo. Bruce Friedrich, presidente do Good Food Institute, organização sem fins lucrativos, anunciou, alto e bom som, que todas as empresas de investimento, aceleradoras de tecnologia e firmas consolidadas no setor de carnes estavam se mobilizando, chamando as carnes cultivadas de “imensa oportunidade de investimento”.

O RethinkX, laboratório de ideias dedicado à adoção de novas tecnologias, foi ainda mais longe. “Até 2030, a demanda por produtos bovinos terá caído 70 por cento. Antes de chegarmos a esse ponto, o setor pecuário dos EUA estará efetivamente falido”, diz um de seus white papers, e acrescenta: “Outros mercados de proteína animal, como o de frango, porco e peixe, seguirão uma trajetória semelhante.”

“Vamos reduzir o custo e aumentar o sabor, e acho que, muito provavelmente, em um futuro próximo, essa será a carne, e é muito improvável que haja outra opção”, declarou Tetrick na convenção anual do Good Food Institute.

George Peppou, diretor executivo da Vow, empresa australiana de carne cultivada, na época com poucos meses de existência, estava presente na plateia. “Eu me lembro de estar sentado ali pensando como aquilo era incrível. Essas empresas estão prontas. Tipo, isso está acontecendo”, contou.

Algo estava acontecendo, mas exatamente o quê? Em 2019, enquanto essas empresas se esforçavam para encontrar caminhos viáveis até o mercado, cientistas da futura Upside conduziam testes genéticos em uma linhagem celular de frango de alto desempenho. Para sua surpresa, também identificaram contaminação com células de laboratório, mas, nesse caso, era um roedor ainda menos palatável do que o camundongo: o rato.

Por e-mail, a Upside assegurou que a linhagem de células contaminadas nunca foi “destinada ao nosso processo comercial” e que isso representou um incidente isolado que ajudou a empresa a aprimorar suas medidas de controle de qualidade.

Em janeiro de 2020, a companhia anunciou a captação de US$ 161 milhões em uma rodada de financiamento, marcando o maior investimento divulgado publicamente para uma empresa produtora de carne cultivada.

Steve Molino é diretor do Clear Current Capital, fundo de capital de risco em estágio inicial focado em alimentos sustentáveis, um dos primeiros a apoiar a BlueNalu (atum azul de células cultivadas), para a qual foi levantado um investimento de US$ 118,3 milhões. Acostumado a fazer grandes apostas com informações limitadas, ainda assim expressou sua surpresa diante do fluxo de investimentos no setor. Molino observou o aumento significativo de recursos, destacando a falta de números concretos que permitam previsões fundamentadas. Segundo ele, a ausência desses dados torna fácil se iludir com resultados iniciais e acreditar precipitadamente que determinado produto é o futuro.

Josh Tetrick relembra sua experiência em Boulder, no Colorado, no Dia de Ação de Graças de 2020, quando estava constantemente em contato com sua equipe em Singapura, onde a Eat Just buscava sua primeira aprovação governamental. “Eu me deitei e deixei o celular de lado por algum tempo só para não ficar checando o tempo todo. Adormeci no chão e acordei com nosso chefe de regulamentação me ligando para comunicar que tínhamos conseguido”, ele me disse.

A divisão de carne cultivada da Eat Just tinha capacidade para produzir apenas uma pequena quantidade de frango, ainda assim com consideráveis prejuízos financeiros. O processo ainda dependia de soro fetal bovino, produto proveniente da cadeia de suprimentos animal, contrariando a proposta de tornar obsoleta essa prática. Segundo a empresa, o produto continha cerca de 30 por cento de ingredientes de origem vegetal, resultando em uma mistura de nugget de frango com hambúrguer vegetariano. Apesar disso, a aprovação foi tratada como um evento histórico. Em um artigo que denominou a iniciativa como “um momento marcante para o setor de carnes”, o “The Guardian” destacou que a “carne cultivada em laboratório e sem mortes será colocada à venda pela primeira vez”.

O investimento no setor registrou um aumento de mais de 300 por cento entre 2020 e 2021. A Shiok Meats, inicialmente focada em frutos do mar cultivados, angariou US$ 30 milhões, mesmo sem possuir uma linhagem celular capaz de crescer o suficiente em cultura, requisito básico para o sucesso. Já a New Age Eats, especializada na produção de salsichas cultivadas com apenas um a dois por cento de células animais, levantou US$ 32 milhões e deu início à construção de uma fábrica de dois mil metros quadrados em Alameda, na Califórnia. A edificação era um exemplo do que um artigo da revista “Nature Food” descreveria como “instalações-piloto Potemkin” do setor.

Isha Datar, diretora executiva da New Harvest, organização sem fins lucrativos dedicada ao financiamento de pesquisas públicas e acadêmicas sobre carne cultivada, observou tudo isso com incredulidade, ciente de que os desafios científicos fundamentais ainda não haviam sido superados. Ela se lembra de ter alertado seu conselho de que isso se configurava como uma bolha destinada a estourar.

Em novembro de 2021 a Upside inaugurou oficialmente sua fábrica em Emeryville, na Califórnia. Durante a cerimônia transmitida ao vivo pelo YouTube, Valeti declarou a uma multidão de funcionários entusiasmados: “Já não é só um sonho.” As instalações em Emeryville foram concebidas com imponentes reatores reluzentes, destinados, segundo a empresa, à produção de peitos de frango cortados inteiros. Contudo, conforme reportei recentemente em colaboração com Matt Reynolds, a Upside tem produzido suas costelinhas de frango praticamente de forma manual, em quantidades mínimas, utilizando garrafas plásticas descartáveis.

Esse método, embora complexo, é inescalável e insustentável, gerando mais resíduos plásticos do que carne. A Upside esclareceu recentemente que nunca teve a intenção de produzir as costelinhas em larga escala. De acordo com a empresa, o objetivo era “inspirar os consumidores com uma visão do que é possível fazer com a carne cultivada, e foi alcançado”.

Quanto à Eat Just, em maio de 2022 sua divisão de carne cultivada, a Good Meat, anunciou a intenção de construir duas fábricas, em Singapura e nos Estados Unidos. A instalação nos EUA seria uma megaestrutura com dez biorreatores de 250 mil litros, projetada para produzir milhões de quilos de carne. Mas os custos projetados aumentaram drasticamente, no exato momento em que o financiamento da startup entrou em um declínio acentuado.

“Fiquei surpreso com a rapidez com que os mercados de capitais fecharam”, comentou Tetrick. Segundo ele, um dos principais financiadores de empresas de carne celular optou por redirecionar seus investimentos para o mercado imobiliário.

No ano passado, a Abec, empresa de construção que desempenhou um papel crucial na edificação das fábricas, moveu uma ação judicial contra a Eat Just e sua divisão de carnes cultivadas, pleiteando aproximadamente US$ 100 milhões em contas pendentes e compensações por alterações no escopo do projeto. (As contra-alegações apontam, entre outras coisas, que a Abec não entregou os equipamentos adquiridos.) Outra empresa também enfrentou um processo por contas não pagas na casa dos milhões.

Depois de todos esses anos de otimismo – embora sem nenhum produto disponível nas prateleiras –, parece que a fatura finalmente chegara.

Quando estive na sede da Eat Just em Alameda no mês passado, a primeira imagem foi a de Josh Tetrick em de uma sala de conferências escura e com paredes de vidro em uma chamada pelo Zoom, focado em uma planilha complexa projetada em uma tela. Em 2023, a Eat Just demitiu pelo menos 80 funcionários e, durante minha visita, estava passando de dois prédios para um.

A antiga aura de confiança de Tetrick se tornou agora mais sutil; ele emana um estoicismo obstinado, com ocasionais lampejos de frustração e tristeza. “O maior desafio é ter de pensar em longuíssimo prazo. É preciso ter uma visão não só dos próximos dez anos, mas dos próximos 50. O objetivo não é apressar a construção de uma fábrica imensa. É tomar medidas que aumentem a probabilidade de que, ao longo de décadas – estou até engasgando com a palavra ‘décadas'”, admitiu.

Tetrick expressou a esperança de que a Eat Just, que continua comercializando produtos à base de vegetais, como o Just Egg, alcance o ponto de equilíbrio neste ano. No entanto, o homem que, em tempos passados, se manifestava de maneira otimista sobre a revolução agora afirma: “Não sei se nós, do setor, conseguiremos descobrir isso da maneira que precisamos ainda nesta geração.” Com uma risada forçada, acrescentou: “As pessoas que investem em nossa empresa não querem esperar tanto.”

Segundo Tetrick, a realidade é que a viabilidade econômica da carne cultivada permanecerá inalcançável para todos até que as fábricas possam ser construídas por uma fração do custo atual, e ele admite não ter uma solução para esse desafio.

Para ilustrar a intensidade emocional dessa percepção, ele repetidamente recorreu à frase de Mike Tyson sobre como todos têm um plano até levar um soco na cara.

Tetrick sugeriu que o mesmo golpe implacável pode aguardar outras empresas que realmente tentarem expandir a produção em larga escala, mas a maioria delas ainda não tem conhecimento disso.

A concorrente de Tetrick, a Upside Foods, também não tem nenhum produto à venda nas lojas, mas afirmou manter o otimismo em relação às suas perspectivas. A empresa destacou ter “avançado significativamente” em novos produtos e processos de fabricação, direcionando seus esforços para o desenvolvimento de carne de frango cultivada no solo, que será o foco inicial de uma futura fábrica, planejada para ocupar 17 mil metros quadrados ao norte de Chicago.

Tentei várias vezes falar com Uma Valeti, diretor executivo da Upside, mas seu porta-voz não me atendeu. Em resposta às minhas perguntas detalhadas, a empresa respondeu, em parte: “Como ocorre com toda tecnologia transformadora, nosso caminho e nosso plano de expansão evoluíram à medida que inovamos e buscamos efetuar algo nunca antes feito, em um ambiente externo e econômico imprevisível e em constante mutação. A inovação não segue uma linha reta e contínua. A sugestão de que nosso caminho é incomum ignora a realidade de como as tecnologias transformadoras se desenvolvem e presta um desserviço a todo inovador que se atreve a introduzir algo novo no mundo.”

É verdade que a inovação raramente segue um curso linear. Contratempos são esperados no desenvolvimento de qualquer nova tecnologia. Isso faz parte do progresso, e houve alguns avanços recentes.

Pesquisadores da Universidade Tufts desenvolveram células de vaca para produzir uma proteína que anteriormente era adquirida a um custo elevado. A Upside e a Eat Just, entre outras, encontraram maneiras mais econômicas de fabricar seu caldo de nutrientes, eliminando a necessidade de soro fetal bovino. Alguns observadores do setor sugerem que melhorias incrementais como essas poderão um dia viabilizar as carnes cultivadas de luxo, destinadas a nichos de mercado mais lucrativos, ou aprimorar opções predominantemente baseadas em vegetais. Além disso, há a possibilidade de que as pesquisas conduzam a avanços em outros campos. “Estou convencida de que algo positivo vai resultar disso, mas não tenho certeza se vai ser a carne”, comentou Isabelle Decitre, fundadora da ID Capital, empresa de investimentos com foco em tecnologia alimentar. Ainda assim, algumas pessoas veem o setor como uma ameaça crescente. A Flórida e o Arizona propuseram recentemente projetos de lei para proibir a venda de carne cultivada em células, e outros estados americanos podem seguir essa decisão.

No entanto, por mais familiar que seja o caminho tortuoso da carne cultivada, um aspecto se destaca: tanto o setor como seus principais protagonistas, a Upside Foods e a Eat Just, investiram em instalações dispendiosas e buscaram a aprovação governamental antes de superar os desafios tecnológicos mais cruciais.

Durante uma conferência sobre agricultura celular promovida no mês passado na Tufts, Dave Humbird, especialista em biotecnologia, observou que o setor havia “aspirado” estar pronto para o mercado, algo que ele nunca viu funcionar. Sua previsão para o futuro da carne cultivada: “A pesquisa e o desenvolvimento voltarão para o meio acadêmico. E isso provavelmente é algo positivo.”

Sua extensa análise na revista “Biotechnology and Bioengineering”, revisada por pares, constatou que os altos custos de produção em instalações de carne cultivada provavelmente tornariam seus produtos inacessíveis para o mercado de alimentos.

Vários dos veteranos do setor com quem conversei foram ainda mais pessimistas. Joel Stone é um consultor especializado em biotecnologia industrial. Perguntei a ele qual era a probabilidade de que, durante minha vida, até dez por cento do suprimento de carne dos EUA fossem cultivados. “Se eu tivesse de apostar nisso, as chances seriam zero”, disse sem rodeios.

Durante minha recente visita aos escritórios da Eat Just, finalmente tive a oportunidade de experimentar o produto. Na cozinha de testes, os chefs trouxeram um único pedaço grande de frango cultivado em um prato branco brilhante. Eles o cortaram em seis fatias, servindo quatro para mim com cogumelos e brócolis em cima de um lindo purê cor de lavanda, e guardaram duas para eles e para minha anfitriã, a diretora de comunicações da Eat Just, Carrie Kabat. Parece que o ato de provar o prato ainda era uma ocasião especial para eles. “Isso custou US$ 10 mil”, brincou um dos chefs.

O frango estava saboroso, com um leve sabor umami salgado, mas a experiência foi mais semelhante à de comer tofu ou seitan do que frango, o que faz sentido, já que o produto é rico em proteína vegetal. A experiência jamais satisfaria um comedor de carne radical, o que, afinal de contas, era o objetivo. Então, para que serviu todo esse esforço?

Estamos em meio a uma catástrofe global em câmera lenta. A cada ano que passa, a força destrutiva da mudança climática se torna mais desestabilizadora, e o dano humano aos animais se torna mais extremo. No entanto, as mudanças necessárias em toda a sociedade para evitar os piores resultados também são de grande magnitude. É muito tentador nos apegarmos às lembranças recentes de um passado menos tumultuado.

A carne cultivada incorporava o desejo de que pudéssemos mudar tudo sem mudar nada. Não precisaríamos repensar nossa relação com Big Macs e bacon. Poderíamos continuar acreditando que o mundo seria sempre como o conhecemos.

A carne cultivada também representava uma versão tentadora de uma fantasia profundamente americana: a de que podemos simplesmente comprar um mundo melhor. Num cenário em que nossos prazeres favoritos costumam vir à custa de outra pessoa – ou de outra coisa –, esse produto redefinia o consumo como uma virtude. Para a classe dos investidores, era a confirmação de que ganhar dinheiro e fazer o bem podem realmente se alinhar.

Em última análise, foi uma manifestação de nossa fé na tecnologia e nos visionários, com um protótipo sofisticado, uma boa apresentação e muito charme natural.

Sob esse prisma, a carne cultivada sempre pareceu contar uma história de otimismo. Uma narrativa sobre como as pessoas se unem para resolver grandes problemas no momento certo. Sobre o potencial infinito da engenhosidade humana, nossa capacidade de tornar possível o impossível.

Contudo, quanto mais tempo passo nesse setor, mais sinto que todo o projeto se baseia essencialmente no desespero, no reconhecimento de que a mudança real, a mudança política, é impossível. Portanto, oferecemos às pessoas algo novo e brilhante para comprar.

Para minha surpresa, Tetrick compartilhava de uma visão semelhante. “O motivo pelo qual fazemos carne cultivada está relacionado ao meu extremo pessimismo em relação à capacidade dos seres humanos de efetuar essa mudança coletiva. Acredito que o vício em carne está profundamente arraigado em nós”, afirmou durante uma conversa por telefone.

Mais tarde, quando conversamos pessoalmente, perguntei o que ele achava dos US$ 3 bilhões investidos em carne cultivada. Esse montante teria contribuído mais para um mundo melhor se fosse direcionado a outra área? Tetrick ilustrou a situação ao posicionar as mãos sobre os joelhos, simbolizando dois indivíduos correndo. O corredor da direita, explicou, representava o ativismo de base, a militância política, a educação nutricional, a política agrícola, as práticas trabalhistas justas e a conservação dos animais. Já o corredor da esquerda representava a carne cultivada. Em qual deles ele apostaria os US$ 3 bilhões para atingir o futuro que desejava? Ele apontou o corredor da direita.

Por um breve instante, parecia que ele estava despertando de um sonho de anos. Mas, antes que eu pudesse questionar como ele poderia continuar liderando a empresa, ele respondeu à minha pergunta. Disse que é menos provável encontrar pessoas para dar esse montante ao corredor da direita. Mesmo que seja uma estratégia mais eficaz, não é assim que o mundo opera. “As pessoas estão muito mais inclinadas a investir em algo que proporcione retorno a elas do que a simplesmente fazer uma doação. Considero isso lamentável, mas é a realidade.”

Deixemos de lado por um momento nossas preocupações alimentares. O que será necessário para transformar essa mentalidade? Costumamos associar a tecnologia à rapidez e as mudanças de base a uma evolução mais lenta. No entanto, a ironia reside no fato de que, por vezes, as inovações tecnológicas não prosperam sem um esforço colaborativo extenso e, por vezes, tedioso. Isso demanda novas regulamentações e ações políticas audaciosas, além de diálogos culturais desafiadores. São necessárias mudanças reais e, por vezes, desconfortáveis.

(Joe Fassler é um jornalista que cobre questões alimentares e ambientais. É autor de “Light the Dark” e do romance “The Sky Was Ours”, que será lançado em breve. Esta matéria é acompanhada por arte de F.C. e uma foto de Gabriela Hasbun, disponíveis gratuitamente para clientes do serviço de opinião do “The New York Times”. Foi produzida em parceria com o Centro McGraw de Jornalismo de Negócios da Escola de Pós-Graduação em Jornalismo Craig Newmark da Universidade da Cidade de Nova York.)

c. 2024 The New York Times Company

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